Friday, September 27, 2002

Ola! Esse e do meu "amigo" intelectual que todos amam odiar e ele adora isso.
Gostaria de ter mais conhecimento de causa para analisar sua reflexao sobre o assunto; mas na minha modesta opiniao, a principio, e como uma amante da cultura pop e de sua velocidade supersonica de evolucao; devo concordar com quase todas as afirmacoes desse brasileiro metido a "newyorker", ou vice e versa como dizem alguns.
Ps.: uma dica para quem quiser ler, copie e imprima nem que seja em modo economico, porque o texto e grande e faz mal ler no computer.
.
Gianecchini e a arte de representar
De: Gerald Thomas
.
No ano em que se completam duas décadas de morte do papa do method acting, Lee Strasberg - que revolucionou a arte da representação, adaptando o ''ator'' (como ele era estudado e recriado por Stanislavski para o teatro naturalista que iniciava o século 20) ao intimismo criado pela invenção do microfone e o evento industrial da câmera de cinema e de televisão - o público em geral e mesmo os críticos ainda não sabem muito bem como julgar ou classificar essa lindíssima profissão que chamamos de ator. Digo, o ator moderno, com todos os defeitos e despreparos, virtudes e intuições que a voracidade dos tempos modernos nos empurra goela abaixo.
.
Infelizmente, acho que os críticos e os experts em geral estacionaram no estereótipo arcaico e jurássico do ''grande ator'', como Laurence Olivier, John Gielgud ou Alec Guiness, pois não sabem lidar com a nova ordem mundial de valores e não se conformam que os tempos mudaram.
.
Claro, ainda existem os chamados character actors, aqueles que, como Gary Oldman e John Malkovich (casos muito bem-sucedidos), se ''transformam'' nos personagens, vivem-nos, rastreiam seus passados fictícios e acham que estão encarnando desde ''dráculas'' e punk rockers (como Sid Vicious) até assassinos psicopatas que querem matar presidentes com a paciência de um obcecado.
.
Outro caso bem-sucedido é De Niro em Touro indomável, que chegou ao extremo de engordar cerca de 25 kg para viver o boxeador, tema do filme. Se querem saber, acho que a maior parte daqueles que ainda hoje pronunciam a palavra ''personagem'' está fazendo papel de ridículo, caindo na patética ilusão de estar ''levando'' o público a uma viagem temporal qualquer e recriando tempos históricos que mais se parecem com o teatro infantil. Nada entendem dos progressos trazidos por Artaud, Beckett, Tadeuz Kantor, Pina Bausch e Bob Wilson.
.
Esses atores (que ainda falam em personagem) não entenderam que os tempos modernos não requerem mais nada disso. Hoje o ator é você, tem a cara de você e tem que trazer sua própria experiência de vida para o palco e transformá-la num espelho da sociedade e fazer desse espelho uma metáfora que conte a história do NOSSO TEMPO.
.
Exemplo de um sucesso de público que é malsucedido como ator mas que ainda insiste na tal ''personagem'' é Dustin Hoffman, que tenta tanto, mas tanto, ''estudar'' aquele que ele visa interpretar que o resultado não passa de um bando de tiques nervosos, movimentos idiossincráticos insuportáveis pois ele esquece o primordial (aquilo que as academias de acting ainda conseguiram entender): que dentro de um grande ator existem duas figuras distintas, o representador e o intérprete.
.
No mundo da pintura, o ''intérprete'' ficaria por conta de um Jackson Pollock (que vê o mundo daquela forma explosiva) e aquele que ''representa'' (ainda no mundo da pintura) é aquele que tenta espelhar a natureza, seu pôr-de-sol, suas ondas quebrando na areia.
.
Em qualquer outra área que não lide com a arte da representação ou da interpretação, o mundo parece ter aceitado os avanços tecnológicos (mesmo reclamando de botões automáticos e dígitos com identidade própria) e exige o carro cada vez mais novo, o televisor cada vez mais fino e o computador cada vez mais leve e mais veloz.
.
Os tempos demandam mudança (graças a Deus) e essas mudanças nem sempre são bem vistas por aqueles que se achavam experts na arte conformada e estabelecida. Na música, o ''evento'' Elvis Presley deve ter sido um pesadelo para os experts em Sinatra, assim como a (não) voz de Mick Jagger deve ter sido um pesadelo para os experts em Elvis Presley. E assim o admirável novo mundo da globalização e da trivialização da cultura (que nada mais é senão decorrência de um processo de democratização da informação das elites) caminha futuro adentro e introduz seus novos valores.
.
E nesses novos valores entram atores como Reynaldo Gianecchini, que até hoje vejo se ''desculpando'' na frente das câmeras ou explicando com humildade que está tentando melhorar e aperfeiçoar seu trabalho. Num programa recente do meu queridíssimo Faustão, Giane era o convidado principal e eu acabei dando um depoimento que, editado como foi, acabou não expressando o macrocosmo desse mundo fictício em que vivemos e que enxergou em Gianecchini algo especial. Então, vamos logo zerar essa questão que nos persegue (a mim e a ele) desde que trabalhamos juntos em Príncipe de Copacabana, há mais de um ano.
.
Giane é um excelente ator. E não estou brincando. Mas, por favor, não exijam dele o perfeccionismo interpretativo de um Dan Stulbach (estupendo, aliás, na peça Novas diretrizes para um tempo de paz, de um realmente grandioso autor, Bosco Brasil). Não exijam dele que nos traga de volta um Henrique V ou que replique o brilho dos olhos de um ator como Paulo Autran ou Fernanda Montenegro, cuja mera presença no palco já nos preenche daquilo a que chamamos carisma ou arte total.
.
Giane está bom, está ótimo. E se seu sucesso vem de sua beleza e de sua candura, isso é assunto para sociólogos e behavioristas. Como diretor, não tenho uma única crítica a fazer a esse ator. Se a Gabi, sua mulher, deu um pulo de zero a mil em um único (e primeiro) espetáculo teatral (porque seu gene já contém uma intérprete divina, suprema e abençoada por Deus), isso é um evento raríssimo na História. Ator rala. Estuda, decora, se movimenta, se estica, morre de insegurança, faz aula disso e daquilo pra conseguir aquilo que mais lhe interessa: transformar seu ego em talento e seu talento em expressividade universal.
.
Sinceramente, não entendo por que ainda o criticam tanto e - entendo menos ainda - por que ele insiste em se justificar. Seu despreparo (real) é fruto do mundo em que vivemos e isso, no caso do Giane, é uma enorme virtude e explica a absoluta integração com seu público. Bob Dylan não pediu desculpas por ter aquela voz. Só que aquela voz mudou o mundo e aqueles que cursavam anos e anos de conservatórios de música hoje não passam de pobres e medíocres tenores, lutando por pobres e medíocres papéis.
.
O infeliz acidente que estourou seus dentes, esse sim, foi algo horroroso (por parte de Ana Paula Arósio) e nada tem a ver com interpretação ou representação: tem a ver com alguém que deveria entender que teatro, cinema ou televisão não lidam, JAMAIS, com a verdade e sim com sua ficcionalização. Meter um cano de ferro na boca do ator porque se sentiu ''tomada'' por algo não a eleva à divina tribuna da arte que fazemos.
.
Me sinto meio besta escrevendo sobre esse assunto num mundo prestes a entrar em guerra ou num fim de semana que trouxe a prisão de Elias Maluco, além das eleições, cada vez mais próximas, e dos problemas gritantes do apartheid social que empobrece nosso país. Mas é que a questão entre Reynaldo Gianecchini e eu está entalada na minha garganta desde Príncipe de Copacabana. Como ele é definitivamente um protagonista, só gostaria de deixar claro que mudaram os parâmetros culturais do mundo nesta virada de milênio e pediria que o deixassem em paz, não quebrassem seus dentes e o encorajassem a fazer algo que ele sabe fazer com excelência: representar.